Lactações naturais: sem uso de hormônios
ou outros estimulantes químicos para aumentar produção

Quarta, 04 de Julho de 2012

Carta ao Jornalista Rosimar Silva, editor de Girbrasil

Entre seus muitos méritos, GirBrasil tem o de ter posto no ar, há mais de três anos - precisamente, em 21 de novembro de 2008, o debate sobre o descaminho do gir leiteiro para a artificialidade
Foi quando divulgou o excelente artigo dedicado ao tema por Ivan Ledic, seguido de um fértil debate, do qual participaram criadores e técnicos do Brasil e do exterior. Achei tão bom que guardei: Veja novamente. Mas nada aconteceu para mudar o quadro.
Continuou a febre de lactações fantásticas, continuou o uso antiético e sanitariamente condenável de hormônios e outros aditivos químicos para inflar lactações e apressar crescimento e parto.

Assim, não posso senão saudar essa medida tomada agora pela ABCGIL e fazer votos para que ela tenha bom resultado. Mas devo dizer que a considero tardia - antes tarde que nunca, é certo -,porque veio quando essa distorção já prejudicou demasiado a credibilidade do gir leiteiro, e insuficiente, porque não se trata apenas de controlar torneios em exposição, trata-se de muito mais. Em particular, a meu ver, é urgente sanear o procedimento no controle oficial de pesagens nas fazendas, sujeito a manipulações, e "limpar" de distorções herdadas de lactações fantasiosas os dados utilizados pela Embrapa para avaliação de touros - além de, obviamente, coibir o uso de hormônios e outros agentes químicos para inflar lactação.
Sou criador e selecionador de gir leiteiro há 26 anos. Depois de Manoel Reis, sou o mais antigo no Estado do Rio. Tenho o maior rebanho PO da raça no estado, da melhor qualidade. Mas minhas vacas não participam de torneios leiteiros porque me recusei sempre a "bombar" com hormônios e outros recursos químicos as lactações delas.

Pago alto preço por isso, porque a visibilidade de meu criatório no mercado fica prejudicada e meus touros, embora de excelente qualidade - provada na fazenda -, não podem participar dos programa de melhoramento genético da Embrapa, uma vez que as centrais de sêmem não recebem touros cujas mães não têm lactação superior a oito mil quilos - e isto me foi dito em várias delas. Minhas melhores vacas alcançam sete mil quilos; então, meus touros ficam excluídos. Mas, em manejo a pasto, que é o correto para manter a rusticidade do gir, sete mil quilos é ótima lactação!
Um procedimento eficaz de correção é o de prova para novilhas primíparas em regime a pasto, semelhante ao que as associações de gir leiteiro de Minas, de Goiás e de São Paulo estão promovendo. Espero que o Estado do Rio também siga esse caminho. Então, finalmente, terei oportunidade para provar a boa qualidade de meu plantel.
Parabéns outra vez por seu trabalho em Gir Brasil!

 

Autor

Renato Guimarães
Criador de Gir no estado do Rio de Janeiro
Fazenda: Indaiá
Piraí - RJ

Comentários

06/07/2012 - Felício Quitito | vitoria- ES
Caro amigo Sr. Renato Guimarães,

Não precisa se sentir incompetente não, pois ai estar a realidade da produtividade desonesta dos produtores de leite não é só da raça gir não do girolando também, estão contaminando o consumidor inocente devido essa falta de respeito com o ser humano, são pessoas pensando em levar vantagem em tudo, esse é o mal do brasileiro, será até quando os órgãos brasileiros responsáveis irão tomar uma medida rígida contra, esse abuso com respeito aos animais e aos seres humanos, na Europa a fiscalização é séria, além dos hormônios o governo deveria fazer uma fiscalização é sobre os antibióticos presente nas carnes bovinas, que vão para as mesas dos consumidores, com isso os patógenos vão criando resistência aos antibióticos.

06/07/2012 - José Luiz Costa | Brasília/DF
Prezado sr. Renato Guimarães, gostaria de informar que estamos no mesmo barco, buscamos a criação e seleção do Gir em manejo racional, sem o uso desses artificialismos.

Para mim, o marketing que eles produzem é negativo para a raça. Passa a existir um descolamento entre a realidade dos currais e a falsa realidade desses recordes.

Na verdade, isso depõe contra a raça. Acredito que o senhor possa colocar touros no Teste de Progênie da ABCGIL. O critério agora é o mérito genético do animal dentro do seu rebanho e não mais o valor absoluto da lactação da mãe. Basta inscrever seus tourinhos na pré-seleção. Aliás torcemos para ver a genética dos seus animais sendo provada e espalhado pelo Brasil e pelo mundo.

Esse é o verdadeiro Gir Leiteiro, cuja força está em produzir proteína de qualidade a partir de volumosos e concentrados.

Parabéns pelo trabalho e saiba que tem a minha admiração !!

04/07/2012 - Ivan Luz Ledic | Uberaba/MG
Caro Renato, o dia do retorno às boas práticas de criação estarão de volta. Tenha certeza que seu rebanho, de grande mérito genético, será sem dúvida ainda, como tantos outros, mais valorizado pelo manejo adequado que se utiliza no sistema de produção. E tenha certeza da importância de seu trabalho, mais que alguns outros famosos da mídia, porque o rebanho Indaiá presta o serviço àqueles que necessitam desse gado, pois os pequenos e médios criadores estão utilizando seus animais e aumentado a produtividade e lucros para sustentarem sua família. Essa é a verdadeira função do Gir Leiteiro, mudar o perfil da pecuária de subsistência, mesmo que seja somente em torno de seu município. Parabéns amigo, continue na trilha certa

04/07/2012 - Ramiz Bretas - Estância 4 R´s | João Monlevade - MG
Sr. Renato Guimarães,

O Sr. consegue 7.000 quilos de leite a pasto?

Parabéns Sr. Renato. É de se orgulhar. Mas se me permite um observação, mesmo concordando com o que o Sr. nos fala, acredito que "nem tanto ao mar, nem tanto à pedra". Querendo ou não, este processo fez crescer a raça e chamar a atenção para nós, criadores.

Acho errado, mas temos que reconhecer que as chamadas "bombas", tiveram seus méritos. Hoje, nos indignamos e vamos colocar novas regras. Faz parte da evolução, tanto da raça, como dos criadores e associações. Entenda, não sou contra ao que o Sr. escreve, mas acredito que nos força a evoluir.

Forte abraço e parabéns mais uma vez.

04/07/2012 - João Paulo Mendonça | Rio de Janeiro / RJ
Caro colega Ramiz,

Dessa eu irei discordar de você veementemente. Quando você expressa que o sucesso do Gir Leiteiro se deu "graças" ao uso de "bombas" para garantir as ideais taxas de lactações e o crescimento da raça eu vejo isso com muita preocupação.

O que foi comentado no na carta pelo Sr. Renato Guimarães e é discutido atualmente é que muito provavelmente está tudo errado. Não é por que hoje nos indignamos que estamos no caminho certo e reconhecer os méritos das "bombas" é reafirmar sem reconhecer nossos erros! Muito pelo contrário.

O uso de tais hormônios no mínimo contribui para uma repentina valorização do rebanho, mas que facilmente pode ser desmoralizada e ir tudo morro abaixo e em caso mais críticos, ao meu ver, mas irrelevantes pra muitos, encaminha o animal ao óbito.

E é isso o que está acontecendo na Mega Leite e em muitos outros torneios leiteiros e currais espalhados pelo Brasil. Dr. Ivan Ledic está certíssimo; devemos voltar as boas práticas de sanidade e manejo animal e principalmente valorizando–o e não apenas sugando sua riqueza, seu ouro branco, que é o leite. Pergunto agora, imaginem, se foram as "bombas" que nos garantiram um "lugar ao sol" e isso continuamente é criticado por outras associações e dentro do grupo Gir, quando for expressamente proibido o uso de hormônios estimulantes, salvo intervenção médica, e as lactações de 12.000 kg, 11.000 kg, 10.000 kg, 9.000 kg começarem a minguar e retornarem a tempos de outrora em que marcavam 2.000 kg, 3.000kg, 4.000 kg, 5.000 kg, estaríamos nós ainda valorizado?

Muito dificilmente, pois isso iria retirar toda e qualquer credibilidade. Como algo que antes era garantia de altíssimos lucros e lactações do rebanho regrediu em seu valor?

O Nelore está caminhando para uma nova fase, menos pomposa e mais profissional. São os vários criatórios que estão liquidando o seu plantel e o Gir Leiteiro vai se encaminhar pra isso também devido nossa caminhada às cegas causada pelos flashes das câmeras e sem vislumbrar o verdadeiro mercado.

05/07/2012 - Renato Guimarães | Piraí/RJ
Agradeço os comentários à minha carta. Sobre o que postou Ivan Ledic, só posso dizer que me deixou honrado, vindo de pessoa tão bem conceituada e técnico de conceito alto inclusive além fronteiras. Também agradeço a referência simpática que me fez João Paulo Mendonça e manifesto minha concordância com os conceitos que emite.

Já sobre Ramiz Bretas, agradecendo também à menção simpática que faz a mim, acho que levanta opinião polêmica, pois entre malefícios e benefícios para o gir leiteiro dessa febre especulativa não sei o que é maior. O certo é que é que ela tem de acabar. Quanto a lactações de sete mil quilos na Fazenda Indaiá, embora raras, existem, comprovadas por controle oficial, e terei prazer de mostrar os registros correspondentes, se me der a honra de uma visita.

Por fim, uma homenagem a Rosimar Silva e seu GirBrasil, pela coragem e sabedora de acolher esse debate tão útil para o futuro do gir leiteiro.

Sexta, 06 de Julho de 2012

Sexta, 06 de Julho de 2012

Carta de Ramiz Bretas ao criador Renato Guimarães

Sou um apaixonado pela raça...
É muito bom um espaço democrático (portal GirBrasil) em que as questões polêmicas podem ser discutidas em altíssimo nível.

Antes de qualquer coisa, deixo claro que sou absolutamente contra o uso de "bombas" e estas práticas até ha pouco tempo utilizadas. Chega ao absurdo do abuso.
O "X" da questão está entre o "LEGAL" e o "IMORAL". O permissivo e o não permissivo. Para mim, é imoral, mas infelizmente, até então, é legal. E moralizar isto faz parte de nossa EVOLUÇÃO como criadores, das associações e de nossos animais.
O melhoramento das regras fazem parte do melhoramento da raça. Vejamos recentemente o caso do Radar dos Poções, do Êmulo dos Poções e do Dr. Souto. Quem está pagando a conta é a Fazenda dos Poções e os criadores de boa fé que utilizaram o sêmen falso dos “Radar dos Poções”.

A situação é delicada e teve erros? Claro que teve. Mas teve seus méritos. E a Fazenda dos Poções teve muitos méritos. O maior deles, para mim, foi a importação de animais da Índia, há mais de 50 anos. Sem uma loucura destas, não teríamos o Radar dos Poções e outros animais fantásticos. Há tempos atrás, fazenda era vista de outra forma. Se falássemos com determinados criadores sobre estação de monta então; quanto mais monta controlada. E regras foram colocadas e aperfeiçoadas.
Torneios e Controles Leiteiros terão suas respectivas evoluções. Sobre as chamadas "bombas", isto envolve muita gente. E gente séria também. E que em algum momento do processo erraram, cegos ou não, movidos pela ganância ou não, enfim, erram.
Estes foram e serão penalizados, mesmo que só moralmente, a começar pela perda de seus animais de alto valor genético. E envolveram outros de nem tanto caráter. Mas colocar que todo criador que participa de torneio leiteiro é no mínimo duvidoso, desculpem-me, mas discordo veementemente. E que estas lactações, absurdas ou não, turbinadas ou não, elevaram o nome da Raça Gir, é FATO.
Os números de associados da ABCGIL, da ABCZ, dentre outras falam por si só. Trouxe mídia. Trouxe foco. Trouxe holofotes. Trouxe mercado. E trouxe novos criadores, e muitos, a começar por mim. Só penso que temos que ter um pouco mais de cuidado com a situação. Foi por isto que eu disse "nem tanto ao mar, nem tanto às pedras". Até então, a situação para mim é imoral, mas é legal. E a ABCZ irá moralizar isto. Tenho certeza! Faço parte da ABCZ, não tenho parentes nem amigos íntimos lá nem ganho absolutamente nada para defender A ou B. Mas sei que é uma instituição séria, que busca o acerto, e que erra também, assim como eu erro. As "bombas", omissão ou erro da ABCZ até então, não importa mais, serão corrigidos, mas daqui pra frente. E segue meu lamento pelos animais.
Ao Sr. Renato Guimarães, Quanto as lactações de 7.000 Kg a pasto, raras ou não, tenho absoluta certeza que existem. Em momento algum houve esta dúvida. Elas só são de admirar e de serem exaltadas. O Senhor, pela foto postada, é mais vivido do que eu, e deve ser respeitado pela experiência. É que, pela minha criação, ainda sou do tempo em que os olhos e a palavra de um homem, valem muito. E o Sr. não postaria isto se não existissem realmente.
Quanto à visita Sr. Renato, fica aqui meu e-mail: ramizbretas@yahoo.com.br; e pode preparar o café e o queijo de gir, que eu levo a goiaba e uma cachacinha mineira. Fica uma dica ao Rosimar para divulgação deste seu trabalho.

Forte abraço a todos.

Sábado, 07 de Julho de 2012

Carta ao Girista Renato Guimarães, do Rio de Janeiro

Caro Dr. Renato Guimarães,
Não nos conhecemos pessoalmente ainda, mas de longa data conheço o seu criatório. E por duas vezes já estive no local admirando o excelente Gir que seleciona. Da última vez recentemente há poucos dias retornando de Barra Mansa onde estou atualmente trabalhando na construção de um prédio comercial aproveitei que estava perto das 16:00 horas e fui assistir a ordenha da tarde sendo muito bem recebido pelos seus colaboradores.

Pessoalmente presenciei o quanto suas vacas Gir produzem na segunda ordenha com trato normal, comum a qualquer pecuarista comercial do sul fluminense, e a excelente qualidade da bezerrada sendo grande maioria filhos de touros da Piraí. Vi ainda vacas primíparas filhas de touros da Piraí excelentes tanto na caracterização racial quanto no leite.

Concordo integralmente com a sua filosofia de manejo e seleção do Gir em conformidade com as condições climáticas, técnicas e socioeconômicas brasileiras. Assim como de alguns amigos de Goiás ou que fazem parte das comunidades Gir do Facebook. Uma filosofia que não difere muito da seleção dos irmãos Reis, criação que também conheço bem da vizinhança de nossa propriedade em Valença. Genética que já utilizamos no passado quando meu avô adquiriu touro na década de 80 e de nosso touro atual.

Seleção esta da maior importância na história do Gir no Brasil com inúmeros touros provados, vacas com expressiva produção leiteira sem "doping" e genética presente nos principais touros e/ou vacas atuais - Sansão por exemplo.

Reforço a opinião de que o marketing extremo fundamentado em super lactações de controle leiteiro, com vacas "vazias", superalimentadas e supermedicadas, bem como os fenomenais recordes nos torneios leiteiros da raça Gir ultrapassou o bom senso e o limite do razoável em todos os quesitos. É preciso um basta ou da mesma forma que até pouco tempo atrás alavancou na mídia a raça, nos últimos tempos vem corroendo a sua credibilidade e fatalmente há de trazer prejuízos sérios a mesma.
Em sã consciência, qualquer produtor, selecionador sabe que a genética oferecida nos leilões e apregoada aos gritos e exacerbados discursos de "famosos" consultores (zootécnicos?) é conversa para "boi dormir" e "vaca sonhar". Da mesma forma, suspeita-se que o resultado de testes de touros também esteja sendo influenciados por dados artificiais de parentesco (famílias) e produções de vacas (progênies) com trato diferenciado. A decaída do PTA do Teatro, um excelente touro, com ótimas filhas mas que aparentemente exigem um tratamento refinado (dados estes expurgados do último sumário) aparentemente mostram isso. Teatro continua sendo um touro extra e sempre será, mas provavelmente está sendo vítima dessa filosofia.
Sinceramente, espero que haja uma revisão desses princípios. Que resultados como o Sr. obtém na fazenda com lactações reais, de vacas mortais (mas que vivem décadas e não morrem exaustas e exauridas afogadas em fármacos e super alimentação) sejam reconhecidos.
Que programas de testagem de touros como o Girgoiás mostrem que famílias com mães de 4.500, 5000, 7000 kg por lactação também produzem touros bons (o que nós já sabemos por que usamos estes touros para repasse - os ilustres anônimos e eles em geral dão conta do recado), que provas de leite a pasto se façam rotina, e recursos sejam investidos em programas de MOET e controles leiteiros em currais comerciais multipliquem-se, sejam classificados e tenham seus dados inseridos na matriz de avaliação da raça Gir. Enfim, cair na real e não incentivar, ficar limitado e dar valor apenas às vestes de um "Rei que na verdade está desfilando nú...".

SEJ Johnsson - Rio de Janeiro - sejpecuaria@gmail.com

 

07/07/2012 - Antonio Adolfo Carneiro Alvarenga | Planaltina-DF

SEJ é do tempo que já prevíamos esse problema no tempo do orkut, não serei hipócrita em dizer que não desejei esta desnudada no que fizeram com o gir, alavancados por uma rede bem estruturada de empresários e alguns profissionais da área agropecuária, que invariavelmente saem de cena antes de implodir o sistema insustentável, agora torço para que passe essa fase e que tenha um real ajuste nas coisas para que o gir volte a ocupar um lugar que já foi seu nos currais brasileiros, que tenha o bastão de vaca rústica produtora de leite e excepcional na base formadora de cruzamentos leiteiros, torço para que perca o status de vaca de leilão de luxo e volte as antigas bases de valor, onde a referência é o produto comercial, os detentores de genética extra continuaram ganhando com a biotecnologia multiplicadora, mas que seja real, preto no branco. Um abraço a todos que também sabiam disso e não furtaram de falar ,criadores e técnicos, porque acima de tudo amam a raça e a pecuária nacional!

07/07/2012 - Renato Pires Cardoso | Goiatuba/GO

Parabéns Sej pelo texto endereçado ao girista e seu conterrâneo Renato Guimarães, concordo plenamente com as idéias, sempre achei que estas super lactações e torneios não causam efeitos, muito pelo contrário: só mascaram resultados.

Mas nunca fui radical, sempre achavam que as mesmas eram importante para o marketing da raça, apesar de nunca pretender praticar este tipo de dieta em nosso rebanho.

Agora diante dos últimos fatos e lendo os artigos de vocês aqui no no portal Girbrasil, já estou mudando de opnião e me tornando radical também em relação a esses artificialismos.

Abração!

07/07/2012 - Ivan Luz Ledic | Uberaba/MG

Nada o que acrescentar, apenas endosso o que foi exposto aqui e um abraço a todos nós que com firmeza de caráter e opinião nos expressamos naquilo que acreditamos.

07/07/2012 - SEJ Johnsson | Rio de Janeiro

Caro Renato,

Temos acompanhado no facebook os "casos" e me parece que cresce um movimento para reduzir esse tipo de prática. Bem eu não sou RADICAL a ponto de defenestrar o BST e ocitocina por exemplo.

Pessoalmente não uso e/ou usaria no futuro, prefiro secar uma vaca Gir sem bezerro a mantê-la produzindo a base de ocitocina. Mas, nada contra quem usa ocitocina nas ordenhas e usa o BST dentro das normas de prescrição, ou seja, a partir do momento que há equilíbrio energético na vaca lactante a cada 15 dias (desde que haja alimentação adequada).

Já debatemos bastante o assunto BST e até que alguma pesquisa séria me mostre o contrário que seja usado por quem quer usar.

O que realmente repudio radicalmente é o uso indevido e de forma errada destes artifícios com o acrescimo de inumeros outros farmacos detonando com o metabolismo dos animais.

O ideal é termos vacas limpas, comendo gramíneas e algum concentrado (de preferência subprodutos ou "refugos" de grãos e outros insumos utilizados na alimentação humana e de outros animais), sem ocitocina, sem BST....

Sábado, 28 de Julho de 2012

Carta de Renato Guimarães ao criador Ramiz Bretas

Agradeço a atenção que me dispensou e a gentileza das referências com que me distinguiu. Mas quero questionar o tema principal abordado em sua carta: os benefícios que, não obstante os malefícios, teriam advindo da febre especulativa que atacou o gir leiteiro nas últimas décadas



Aos 80 anos, que é minha idade, fica difícil ser fanático por qualquer ideia. Não o sou hoje, e acho que não o fui em momento algum de minha vida. Procuro ver sempre os vários lados de qualquer assunto. Reconheço que essa fase de delírio do gir leiteiro favoreceu a elevação da média de preços no mercado para todos os criadores. Mas acho que ver nisso uma bondade seria semelhante a considerar virtude os lucros que os proprietários de imóveis tiveram durante a fase de alta da “bolha” imobiliária que, há poucos anos, levou ao desastre a economia dos Estados Unidos. Com efeito, enquanto durou a fantasia, todos os proprietários lucraram, como acontece em todas as “cirandas”.No final, porém, só alguns com maior sorte ou esperteza se salvaram e o mercado em conjunto afundou na crise, com repercussões profundas no mundo inteiro.
No início dos anos 1940, ainda criança em Uberlândia, vi a primeira febre de especulação com o zebu no Triângulo Mineiro. Homens de negócio que entraram no mercado do gir – muitos com dinheiro pego em bancos – davam banho de champagne em touros renomados. Mascates de tourinhos, ao retornar de viagens em lombo de burro a Goiás e Mato Grosso para vender seus lotes, acendiam charuto com notas de 500 mil reis, a festejar seus lucros. Tudo isso numa sociedade de costumes sóbrios, sem os exibicionismos que hoje são moda, na qual charuto era raridade, o comum era o pito de palha. Em poucos anos, a festa acabou, virou fumaça, e sobreveio a grande crise que levou o governo Vargas a conceder moratória – na prática, perdoar a dívida – aos pecuaristas, com perda de credibilidade para todos, inclusive para os que não deviam a banco.
Hoje, quando a economia do país é muito mais forte e os ricos, muito mais ricos, não creio que sobrevenha um final tão funesto. Até porque, bem ao nosso lado, o mercado do nelore, que passou por inchação parecida, está em processo de saneamento, sem grandes tragédias. Mas o ramo girista continua em febre, com muita gente a acreditar que ele é oportunidade para investimento com altíssima lucratividade. Eu mesmo, que sou marginal nele, recebo vez por outra propostas de parceria de pessoas se oferecendo para me pagar R$100 mil ou mais por uma doadora, na ilusão de obter um retorno de 50% ou mais por ano. Ainda me sobra o constrangimento de desmentir esse mito de lucro fácil.
Só vou me sentir confortável nesse assunto quando o uso de hormônios e aditivos químicos para aumentar lactação, acelerar crescimento, e apressar primeiro parto estiver proibido no Brasil, a exemplo do que ocorre na maior parte do mundo civilizado; quando a Embrapa houver extirpado de lactações excessivas os resultados de qualificação de touros em seus programas de melhoramento genético; quando os critérios de lactação a pasto forem principais na avaliação de vacas. Ou seja, quando o gir estiver de novo prestigiado e fortalecido em seu papel de raça rústica, adaptada ao clima e às pragas de nosso país tropical, de origem indiana mas com genética melhorada no Brasil – raça ideal para aumentar a produção de leite e melhorar a alimentação das crianças em nosso país e em todo o mundo abaixo do Equador. Felizmente, parece hoje que esse futuro melhor ficou mais próximo, e para isso muito contribui esse debate acolhido em boa hora por Girbrasil.
Terei o maior prazer em receber sua visita. O café e o queijo de vaca gir o aguardam, e não dispenso a cachaça e a goiabada. É só dizer quando virá.

Forte abraço.

Autor

Renato Guimarães
Criador de Gir no estado do Rio de Janeiro
Fazenda: Indaiá
Piraí - RJ

 

Comentários

30/07/2012 - Ivan Luz Ledic | Uberaba/MG
Assino em baixo, caro Renato.
Cada dia minha admiração por você e seu trabalho é maior. Trabalhei 17 anos como Diretor Técnico da ABCGIL e 30 anos como pesquisador da Embrapa justamente "receitando" o Gir Leiteiro como alternativa para os pequenos e médios produtores de leite. Implantamos o Teste de Progênie para auxiliar os selecionadores a identificar touros superiores com a finalidade de obter ganhos genéticos nos seus rebanhos puros e poderem repassar isso para os produtores de leite como raça pura e também para cruzamentos.

Hoje, com pesar estamos assistindo à “elitização" do Gir Leiteiro como gado para "ricos", afastando seus reais usuários, e com produções que não interessam àqueles que querem animal produzindo a pasto com SUPLEMENTACAO de concentrados. Na América Latina está se fazendo tudo aquilo que deveríamos estar fazendo e fazíamos até há pouco tempo, antes dessa gana de quebra de recordes atrás de recordes. Eles permitem acesso daqueles produtores que necessitam sair "da desordem genética" que os mantém atrelados ao ciclo vicioso de baixa produção por baixa qualidade de seus animais e precisam ir para o "ciclo virtuoso" de produzir leite a baixo custo com animais adequados aos seus sistemas de produção.
Creio que em breve nossos compadres, que hoje possuem genética do Gir Leiteiro brasileiro, irão nos superar, como a Colômbia, que possui rebanho Gir Leiteiro com qualidade igual e alguns animais superiores aos nossos.
Com abertura de mercado e rompimento de barreiras geográficas tenho receio de que um dia poderemos estar na mesma situação dos indianos, que não têm mais esse gado produtivo, adaptado e rústico para servir à pecuária leiteira tropical. Ademais disso, a função de todos deve ser socializar a genética de ponta, sem reserva de mercado, o que já temos observado nas atitudes por parte de alguns criadores que agem nesse sentido, além do fato de que manter esse engessamento das outras nações seria fazer o que fazem os nórdicos com todos os países, ao "desovarem" sua genética taurus alienígena nos países em desenvolvimento.
Quero ver o Gir Leiteiro voltar a ser tudo isso que o Senhor escreveu, como um benefício para a raça e para todos.